1960-2010: 5 DÉCADAS DE INQUIETAÇÃO MUSICAL NO PORTO

 

 

 

De várias coleções particulares, dos próprios artistas e do próprio espólio da Biblioteca Municipal do Porto, é feita esta original retrospectiva de 50 anos de música portuguesa com a “marca” da cidade Invicta. Dos primeiros artistas das décadas de 50 e 60, como são exemplo o Conjunto Sousa Pinto, Os Espaciais, Os Titãs, Walter Behrend, Os Tártaros e os Morgans, aos grupos da década de 70 como foram os Pop Five Music Incorporated, Arte & Ofício, os GAC, Psico, Go Graal Blues Band e os Mini Pop, futuro embrião para a década de 80 já com uma nova identidade; os Jafúmega.


É, pois, a partir da década de 80 que surgem os nomes mais conhecidos da Música Pop e Alternativa Portuguesa como são os Ban, os Entes Queridos, os Táxi, os Trabalhadores do Comércio, os Johnny Johnny e os GNR (como bandas) e artistas a solo como o Rui Veloso, António Pinho Vargas, Aníbal Miranda, Rui Azul e João Loio. Aproveitando a realização da 60ª edição da Feira do Livro do Porto, outro ilustre artista do norte, José Mário Branco, foi um dos homenageados nos seus 55 anos de actividade artística, uma consagração com destaque também na Exposição Musonautas. De facto, vários artistas e bandas são destacados num expositor individual com diverso material discográfico, editorial e algum merchandise, (ver imagens). Entre eles, estão, não só José Mário Branco, como Filipe Pires, os Telectu, Cândido Lima, Sérgio Godinho, Mind Da Gap e os GNR (um expositor algo pobre em relação aos demais).

 

 
     
 
     
 
     
 
     
 

 

Mas não só de vinil e de nomes do passado vive esta exposição. Podemos apreciar também dezenas de registos no formato CD dos novos artistas locais como são os Ornatos Violeta, os Blind Zero, Pedro Abrunhosa, X-Wife, os Zen, Old Jerusalem, os Mesa e os Dealema, além de muitos recortes da comunicação social, jornais da época, fanzines e dezenas de posters dos muitos concertos que proliferaram na cidade do Porto e arredores ao logo deste último meio século. Dois deles, (do arquivo d’O Covil do Vinil), não aparecem na exposição, mas são dignos dessa mostra, (ver as últimas imagens). Um deles, do grupo Táxi, era um poster publicitário da editora (60x50cm) utilizado para os concertos da banda e que informava que o álbum de estreia dos Táxi era também o 1º LP de Ouro do Rock Português, como bem diz o distintivo no poster, “certificado pelo g.p.p.f.v.”. Uma honrosa distinção a um grupo musical da cidade do Porto que merece ser sempre referido. 


Quem também merece um destaque são os GNR, uma das melhores bandas do Rock Português e que melhor se identifica com a cidade que os viu nascer em 1980. Após 2 singles de êxito editam o seu primeiro álbum (há quem diga que foi em Abril, outros em Maio). O certo é que o título, “Independança”, foi escolha de última hora já que em Fevereiro/Março ainda não havia certezas, como se depreende pelo poster do concerto em Ermesinde a 20 de Março de 1982. Documento único a assinalar aquele que foi um dos álbuns mais arrojados do BOOM do Rock Português no início da década de 80, e, muito provavelmente, um dos primeiros concertos em que Rui Reininho se apresentou como vocalista e membro efectivo dos GNR. De facto a maioria das fotografias que estão impressas no encarte, "inner sleeve", do álbum "Independança" foram mesmo captadas nas instalações da Escola Secundária de Ermesinde e do concerto. Para os mais curiosos, sabemos também que os GNR cobraram pela actuação 60 mil escudos, ou seja, trezentos euros actuais. Em termos de comparação, os Táxi cobravam à época o dobro e Rui Veloso, o artista mais carote do burgo, pedia 200 mil escudos por actuação, ou seja, mil euros actuais.

 

 
     
 
     
 

 

Mas, para não fugirmos muito dos propósitos iniciais desta iniciativa, nada melhor do que transcrever alguns parágrafos, que achamos dignos e elucidativos, sobre esta louvável exposição, do curador Paulo Vinhas: 

“(…) Esta é uma história da música no Porto ao longo de cinquenta anos. Uma celebração da passagem de inúmeros cometas musicais que incessantemente atravessaram os nossos céus, arrastando na sua cauda músicos e amantes da música - os musonautas - que afinal foram os paladinos e guardiões do pulsar desta cidade.
Nesta história sublinham-se os pioneiros, aqueles que privilegiaram a imaginação em vez da repetição de fórmulas, que expandiram as experiências musicais e ampliaram a percepção dos seus ouvintes. Os que em passo firme ousaram sair da zona de conforto para se envolverem nas lutas pela liberdade e demandas sociais, os que criativamente evocaram e homenagearam tradições (…)”

   Aqui fica uma sugestão de visita a um local que muito apraz aos portuenses e não só, os jardins do Palácio de Cristal, local esse onde se situam as instalações da Biblioteca Municipal Almeida Garret e residência desta exposição. Ainda tem tempo (dizemos nós agora), pelo menos até ao dia 18 Novembro de 2018.

 

NB: Uma triste notícia que ocorreu durante este evento foi o falecimento do fotógrafo Fernando Aroso (Porto, 23/09/1921 - Porto, 1/10/2018), um dos últimos sobreviventes duma brilhante geração de fotógrafos portuenses das décadas de 60 e 70 que muito contribuíram para a qualidade gráfica das edições em vinil das antigas editoras da cidade, como foram a Orfeu, a Rapsódia, a Clave e a Alvorada. Esta exposição foi a derradeira em vida do mestre Aroso, onde podemos apreciar algum do seu valioso espólio fotográfico patente nos discos de artistas e grupos oriundos do concelho do Porto, entre eles (nomes que integram esta exposição) os Arte & Ofício, Pedro Osório e o Seu Conjunto, os Titãs, Pop Five Music Incorporated, Walter Behrend e Sousa Pinto e o Seu Conjunto.

 

Texto de: Francisco J. Fonseca