Não é, nem nunca será tarefa difícil falar de Fernando Farinha, um dos maiores fadistas portugueses do século passado, a par de Alfredo Marceneiro, Fernando Maurício e Manuel de Almeida. Tarefa mais complicada é falar sobre o homem enquanto artista, o homem perante a sociedade que o rodeia, as suas ambições enquanto ser humano num mundo em que se apregoa que o sol quando nasce, nasce para todos.
Efectivamente o sol quando nasce é para todos, mas será que o sol é diferente para alguns? ... que aquece mais uns que outros?... que aqueles que estão na rectaguarda serão os menos beneficiados?...
Estas simples dúvidas, que até parecem nem ter fundamento, são por vezes tidas em conta por quem a vida é algo que transcende a condição humana e que merece todo o respeito e atenção.
Foi assim para Fernando Tavares Farinha desde o dia em que nasceu, a 20 de Dezembro de 1928, ou será mesmo a 5 de Maio de 1929 (data oficial do bilhete de identidade? ...).
Fernando Farinha nunca percebeu em vida se as vicissitudes, as agruras e as alegrias fariam parte dum todo e dum destino que cada um teria de partilhar.
Bem cedo (aos 11 anos) ficou sem pai. André António Capa Farinha era barbeiro de profissão na vila do Barreiro, mas para sustentar a família mudou-se para Lisboa, para o populoso Bairro da Bica, onde sonhava com melhores condições de vida, ver os seus filhos instruídos e bem casados. Mas esse sonho durou apenas quatro anos, a triste realidade é que seus 3 filhos iriam passar por dificuldades inesperadas. Fernando Farinha viveu esses tempos e preparou-se para seguir as pisadas do pai. Enquanto isso, e, como todos as crianças da sua idade, dedicava as horas livres em brincadeiras e assistindo aos eventos que se realizavam amiúde no Bairro da Bica, sendo os mais participativos os concursos de fados entre bairros. O miúdo Farinha gozava já de alguma popularidade entre os seus pares graças às qualidades vocais e às suas imitações dos consagrados fadistas da época, Alfredo Duarte, Filipe Pinto e Júlio Proença. O nome desse pequeno prodígio chegou bem cedo aos ouvidos de Manuel Calmeirão, peixeiro e organizador dos concursos fadistas do Bairro da Bica. Foi pois com os seus 9 anos de idade que Fernando Farinha alcançou um feito quase sempre destinado aos adultos, ser o vencedor dum concurso de Fado e ganhar um “título” para toda a sua vida, “O Miúdo da Bica”. Anos mais tarde, em 1963, iria ser mesmo o protagonista dum filme autobiográfico com esse epíteto.

 

 

Na verdade Farinha foi figura precoce em muitos acontecimentos da sua própria vida. Devido ao inesperado falecimento do pai, conseguiu aos 12 anos de idade (graças ao empenho do promotor Manuel Calmeirão e do empresário José Miguel) a carteira de fadista profissional. Uma maneira engenhosa de seguir a sua promissora carreira de fadista e deste modo contribuir para o sustento da família.
Começou por ser como uma atracção numa casa de Fados, “O Café Mondego”, usufruindo um cachet de 50 escudos por noite. Aos 14 anos, isto em 1941, surgia pela mão do empresário António Macedo, no elenco do Teatro de Revista, “Boa Vai Ela”, apelidado como uma das jovens promessas do Fado. Nessa altura já tinha duplicado de cachet e convivia com alguns dos artistas mais consagrados da época, casos de Hermínia Silva, Alfredo Marceneiro e Mirita Casimiro.
Foi também, à época, um dos mais jovens fadistas a gravar. Em 1938, com dez anos de idade, gravou os seus 2 primeiros discos ainda no formato 78rpm, em shellac, para a editora Valentim de Carvalho (“Sempre Linda”, “Descrença”, “O Meu Destino” e “Tem Juízo Rapaz” foram os fados registados com o acompanhamento (tudo leva a crer) do guitarrista Raul Nery e do viola Castro Mota).
A sua ascensão ao estrelato foi meteórica e com os seus vinte e poucos anos era já um nome consagrado no Fado, actuando, nas melhores casas de fado (“Café Luso”, “Retiro da Severa”, “Solar da Alegria”), nos serões para trabalhadores organizados pela FNAT e na própria Emissora Nacional.
A sua fama estendeu-se por todo mundo de língua portuguesa e era um dos mais solicitados artistas nacionais nas emissões de rádio de Angola, Moçambique, no Estado Português da India, nas comunidades lusas do Canadá, Estados Unidos e Brasil.
É neste último país que em 1951, com apenas 23 anos, que Fernando Farinha se deslocou pela primeira vez em tournée. Foram 4 meses intensos, de espectáculos, entrevistas, solicitações da Rádio Record, da TV-Tupi de São Paulo e amistosos encontros com as maiores vedetas portuguesas no Brasil, como eram à época Manuel Monteiro, Maria Girão, José Lemos, Ester de Abreu, Maria da Graça, António Ferreira, Arminda Falcão e Manuel Caramés, entre outros.
Regressado a Lisboa, Fernando Farinha é contratado como vedeta principal na recém- inaugurada casa de fados a “Adega Mesquita”, no qual vai permanecer 11 anos. Foi também um dos estreantes a aparecer em 1958 nas primeiras emissões televisivas da RTP. Em 1962 foi também o primeiro fadista a ser consagrado como o “Rei da Rádio”, um galardão normalmente atribuído a um artista da canção ligeira nacional.

 

 

É sabido que Fernando Farinha não era só um excepcional intérprete de Fado, também um excelente caricaturista e um prolífero compositor. Registou na Sociedade Portuguesa de Autores cerca de 300 fados de sua autoria, muitos deles gravados por outros fadistas. Era pois também um homem de escrita e de fortes convicções políticas. Embora com ideais de esquerda (foi filiado no Partido Comunista Português), não via porém os partidos como uma religião que os indivíduos tinham que seguir quase cegamente. A liberdade de escolha e a condição humana de cada indivíduo serão sempre bem mais importantes que todos os ensinamentos e práticas. Nesta razão de ser, alguns dos fados que interpretou (mais tarde, após Abril de 74, vetados pela comunicação social) tiveram no seu tempo o seu propósito definido. Fados de êxito como “Fado Angola”, “Fado das Trincheiras” e “Amores de Herói”, nada mais são do que composições fatalistas, em que os deveres dum qualquer soldado são quase sempre postos em causa pelas saudades da família. O partir e o regresso são pois situações comuns em todos eles. Porquê rejeitar estes 3 belíssimos fados de Fernando Farinha apenas porque estão conotados com a presença portuguesa em África? ... Bastará para isso vetar o fadista das estações de rádio e banir da televisão portuguesa? ... Tudo isto basta para ser esquecido neste país de brandos costumes que gosta de valorizar o produto de fora em detrimento do nosso? ... E, se em vez de África fosse a Ásia? ... Deixávamos de ver, ou seriam proibidos em Portugal, 3 dos filmes patrióticos que retratam a Guerra do Vietname; The Deer Hunter "O Caçador", Full Metal Jacket "Nascido Para Matar" ou "Platoon" ?... Não parece que seja por aí o caminho correcto de ser português em Portugal.
A resposta veio quase sempre de fora, das nossas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo fora, que sempre acarinharam os nossos grandes artistas, dando-lhes trabalho e muitas vezes guarida. Para sobreviver Fernando Farinha esteve muitas vezes ausente do país a partir de 1975 (neste ano ainda participou na cidade do Porto na primeira Festa do Avante).
São provas dessas digressões artísticas as fotografias incluídas no final deste artigo captadas em Março de 1982 na comunidade lusitana de Newark. Fernando Farinha era a atracção principal dessa digressão que incluía também a conhecida cantora Alice Maria. Para não ferir susceptibilidades o reportório centrava-se nos últimos fados gravados e naqueles em que os temas não tocavam o patriotismo. Mas, invariavelmente, no final dos espectáculos tanto o “Fado Angola” como “Amores de um Herói” ou o “Fado das Trincheiras”, juntamente com “Casinha dum Pobre”, “Mãe Há só Uma” ou o “O Miúdo da Bica”, eram insistentemente pedidos que Farinha não se rogava a interpretá-los para regozijo dos muitos admiradores presentes. Foram assim os últimos anos de vida do fadista (falecido aos 59 anos, a 12 de Fevereiro de 1988), ele próprio dividido, amado por uns, ostracizado por outros, numa luta constante entre o homem, o militante e o artista. Anos mais tarde confidenciava a viúva D. Lucinda Farinha, que várias vezes acordava a meio da noite com o marido desperto e de olhos lacrimejantes.
De facto, em pleno século XXI, é duma incoerência tamanha e duma assaz mesquinhez como é possível não existir no formato CD dois dos fados mais célebres (já mencionados) de Fernando Farinha: “Fado Angola” e “Amores de um Herói”. Das várias edições conhecidas do grande público, como “Biografias”, “Essencial”, “O Melhor dos Melhores”, nenhuma delas inclui estes dois enormes êxitos na carreira do fadista! Será que, para muitas mentes, omitir é purificar?... Destruir a história é pedir clemência?...
Será que ao ouvirmos (em especial) estes 2 fados teremos que reescrever o “Hino Nacional” ?.. Será pois digno hoje em dia ensinar ou decorar estas frases: "...Às armas, às armas! / Sobre a terra e sobre o mar / Às armas, às armas! / Pela Pátria lutar! / Contra os canhões / Marchar, marchar!..."

 

 

O tempo faz justiça a muitas maleitas e já estamos atrasados para com Fernando Farinha, o fadista que merece muito mais que um nome duma rua e uma lápide na casa onde viveu os últimos anos (por bem intencionados que foram estes gestos pelas gentes do povo).
Há uma dívida do próprio Estado pelo mal que se comportou para com muitos artistas (como foi exemplo maior Fernando Farinha, mas também Alfredo Marceneiro, Anita Guerreiro, António Mourão, Helena Tavares, João Braga e Mário Rocha) fadistas que, por esta ou aquela razão mais discordante, foram inúmeras vezes vetados ao silêncio porque o Fado foi considerado (por alguns iluminados após o 25 de Abril de 74), como uma expressão musical pactuante com o regime salazarista. Fernando Farinha nunca glorificou a guerra do Ultramar nem fez distinção de cores. Apenas cantou o povo, as suas penas e os seus deveres porque o Estado assim o exigia. Assim como hoje em dia ainda exige a todos nós e com penalidades aos não cumpridores…
E tal como se escreve e se canta “Morre o homem, fica a obra”, assim é nosso dever não esquecer Fernando Farinha e ouvir o seu belíssimo legado musical. Sempre!

 



Da esquerda para a direita: António Santos (representante do patrocinador nos EUA), Manuel da Graça (empresário/ promotor da digressão),
Alice Maria (fadista), Fernando Farinha (fadista) e D. Lucinda Farinha (esposa do fadista).



Da esquerda para a direita: Alice Maria (fadista), António Santos (representante do patrocinador nos EUA), Fernando Farinha (fadista)
e uma dupla de comediantes portugueses (pioneiros do que hoje se designa de stand-up comedy).



Quadro a óleo de Fernando Farinha pintado por um artista norte-americano, oferta do empresário Manuel da Graça num jantar de confraternização no final da digressão. As duas fotografias anteriores (pela primeira vez divulgadas) são bem elucidativas da boa convivência entre toda a comitiva.






Anúncio do Jornal de Noticias no dia 24 de Agosto de 1943, noticiando um espectáculo organizado pelo Clube Fluvial Portuense, com a participação de Fernando Farinha, o popular “Miúdo da Bica”. O mais curioso é que, não sendo a atracção principal (mas sim o fadista Manuel dos Santos),
é a fotografia do jovem Farinha que aparece no anúncio (à época com 14 anos de idade).
 

 

Uma das mais populares revistas mensais na década 60, o “Álbum da Canção” dedicou o seu terceiro número a Fernando Farinha.
Saiu para as bancas no dia 1 de Maio de 1963.


 
  

Encartes originais, “audio cassette cover template”, de 2 cassetes de Fernando Farinha. Foi campeão de vendas neste formato entre os fadistas,
só suplantado pela grande Amália Rodrigues.

 
 



Quatro exemplos das várias edições no formato CD do legado de Fernando Farinha.




Capa e contracapa duma edição brasileira da Odeon, “Fados de Portugal”, ano de 1966. Usual por estes anos no mercado discográfico brasileiro
é a original capa tipo “sanduiche”, isto é, envolta na totalidade por plástico transparente.




Capa e contracapa duma edição sul-africana da Parlophone, “Fernando Farinha”, ano de 1971. Não sabemos o local da imagem desta capa nem quem foi o fotógrafo. Mas sabemos que é merecedora dos mais rasgados elogios e de figurar num futuro “compêndio” das melhores capas de Discos de Fado.

 


Capa e contracapa duma original edição norte-americana da Graça Records, “Fernando Farinha Hoje e Aqui”, ano de 1983.
Um dos últimos álbuns editados em vida do fadista.

  

 

Texto de: Francisco J. Fonseca

Colaboração de: António A. Santos