Falar de Fernando Aroso é falar um pouco da fotografia e da Música Popular Portuguesa. Poucos foram os fotógrafos que tiveram um percurso tão rico e diversificado dentro desta área tão específica da fotografia ao serviço da música. A música, essa era sobretudo de raiz popular, de conjuntos típicos, grupos folclóricos, acordeonistas, fadistas e muitos amadores que deixaram o seu testemunho musical quase sempre no formato EP (Extended Play). Fernando Aroso intervinha aí com o seu jeito muito particular de fotografar as coisas mais simples e transformá-las em atraentes capas no formato ideal de 18x18cm e que hoje em dia são como a imagem de marca duma etiqueta, a Orfeu.

Nascido na cidade do Porto a 16 de Setembro de 1921, não foi na música que o autor deu os primeiros passos como fotógrafo, mas sim no teatro, com o ensaísta António Pedro e o TEP (Teatro Experimental do Porto). Em Fevereiro de 1958 realizou a sua primeira exposição, um marco para a denominada fotografia de cena. Em 1959 alugou o primeiro estúdio na rua do Bonjardim e iniciou, por assim dizer, a sua profissionalização. Mas curiosamente não foi como fotógrafo que Fernando Aroso começou a colaborar com o editor Arnaldo Trindade, mas sim como artista gráfico, ao elaborar com Moreira Azevedo uma capa do Quarteto Paraguayo. Embora assinada por Moreira Azevedo, esse registo da Orfeu, ATEP 6006 (ver primeira imagem), teve pois o cunho artístico de Aroso, um facto que se pode constatar não só por oposição ao estilo próprio de Moreira Azevedo (EP anterior ATEP 6005), mas nas semelhanças às poucas capas executadas pela mão de Fernando Aroso. Mas foi a partir deste trabalho que nunca mais parou de prestar o seu contributo como designer gráfico, e, claro, como fotógrafo. Ao todo foram duas mil capas entre Singles, EP’s, 10”, LP's e para as mais variadas editoras; Orfeu, Vadeca, Columbia, Clave, Alvorada, Edisco, Roda, Fénix, Parnaso, Mafras, Tamla Motown/Arnaldo Trindade, Palacios/ Monitor (Venezuela) e Vogue/Mode (França).

 
Segundo testemunho de Aroso, a maior empatia entre o artista e o fotógrafo aconteceu com o Conjunto António Mafra. O bom entendimento entre ambos chegou ao ponto que bastava esboçar as ideias e ser o próprio grupo a procurar os adereços mais adequados e a executar alguns dos cenários. Uma frutuosa relação que resultou nalgumas das melhores capas conhecidas da música portuguesa, com destaques evidentes para “7 e Pico” e “ O Carrapito da D. Aurora”. A mesma relação também existiu durante anos com o Conjunto Maria Albertina, Pedro Osório, Florência e Tristão da Silva. Mas são inúmeros os artistas com quem trabalhou, alguns são hoje nomes importantes no contexto da música Pop / Rock, da Música Ligeira, da Música de Intervenção, do Fado ou da Poesia. São capas de Aroso os dois primeiros álbuns de originais de José Afonso (essas capas foram alteradas nos anos 80 com desenhos de José Santa-Bárbara) e grande parte da discografia de Adriano Correia de Oliveira teve a sua assinatura. Segundo palavras do autor, Adriano detestava ser fotografado, pelo que recorreu a uma solução que agradasse a ambos. Isso é evidente nos dois primeiros LP's. É a filha do fotógrafo que aparece de costas a brincar na praia (o disco obteve o Prémio Pozal Domingues em 1969 pelo conjunto da obra). Quanto ao primeiro LP de 1967, as estátuas que aparecem na capa, estavam depositadas à guarda da Câmara do Porto no Palácio de Cristal. Este conjunto, entretanto resgatado, pode ser apreciado presentemente no jardim da Praça do Império, na Foz do Porto. Dos conjuntos de Pop / Rock portugueses, a atenção vão para algumas das capas de grupos pioneiros, como são os do Conjunto de Pedro Osório, Sousa Pinto e Walther Behrend. Outros há, oriundos da cidade do Porto, que se destacaram na MPP e na fotografia de Aroso, casos dos Titãs, dos Arte & Oficio e dos Pop Five Music Incorporated. É deste último a curiosa capa do EP “Ob-La-Di Ob-La-Da” que vai intrigando alguns discófilos e que não é mais que uma escadaria interior num prédio lisboeta. Há também provas de capas que nunca chegaram às lojas (ver imagens de “Pianorama nº2” de Miguel Graça Moura e “Cantos Velhos Rumos Novos” de José Afonso) e capas que foram alteradas após a primeira edição por maus enquadramentos (ver imagens de “Perseguição” de Florência e “Mulher Deixada” de Tristão da Silva).

 
Das sessões fotográficas marcadas mas que nunca se realizaram, as que mais lamenta foram as de João Villaret e Almada Negreiros, ambas por motivo de doença e consequente desaparecimento. No entanto pela sua objectiva teve o ensejo de fotografar alguns dos mais ilustres poetas e escritores como foram os casos de Alberto de Serpa, Alexandre Pinheiro Torres, José Régio, José Rodrigues Migueis e Miguel Torga. Dos vários posters de publicidade que mais gostou de elaborar foram do músico Beto dos Windies para a marca Porfírios e da cantora Françoise Hardy, quando  em 1964 deu um espectáculo no Coliseu do Porto. Por falar em artistas estrangeiros, fotografou ou foi o designer gráfico de alguns nomes consagrados como são os Kinks, Little Tony, Sandie Shaw, Antoine, Fausto Pappetti, Status Quo, Mariam Makeba e Episode Six (grupo embrionário dos Deep Purple). São porventura deste último grupo e dos Arte & Oficio, os registos em vinil mais procurados pelos coleccionadores com capas executadas por Aroso.

Com a venda em meados de 80 da etiqueta Orfeu / Arnaldo Trindade, também Fernando Aroso muito ligado a esta editora deixou praticamente a fotografia direccionada para a música e para os discos de vinil. Lamentável foi a atitude da multinacional Movieplay, detentora agora do arquivo fonográfico, que impôs a destruição de todo o espólio fotográfico da Orfeu (chapas, negativos, fotolitos, zincos) existente em várias tipografias portuenses e parte dos quais originais pertencentes ao próprio Fernando Aroso.

Felizmente que quase toda a obra fotográfica ainda a podemos apreciar nos dias de hoje, face à existência de muitos coleccionadores de vinil que conservaram muitos exemplares em bom estado, como também podemos apreciar os seus dois livros de fotografia e os dois livros de poesia que escreveu em 1959 e 61. Do primeiro livro “Poemas da Inútil Imagem” tomamos na liberdade de transcrever o “Poema da Fria Água”, no final deste texto.

Legendadas estão também no final algumas imagens, não só da primeira exposição temática das capas de vinil em Dezembro de 2012 “Fernando Aroso - Uma Visão Discográfica” nas instalações da antiga Discoteca Jo-Jo’s Music no Porto, como também de certas particularidades em relação a algumas edições discográficas.

E uma das particularidades que podemos detectar ao autor é a sua assinatura na maior parte das capas. Na verdade foi o único fotógrafo da Orfeu que tinha liberdade para isso, mas também conhecemos algumas mais, de outras etiquetas, como é exemplo o EP da Rapsódia (EPF 5.029) de 1959, um dos seus primeiros trabalhos nesta área e em que aparece excepcionalmente a indicação “foto de Aroso”, (derradeira imagem do último painel de capas).



N.B:

Todas as capas apresentadas neste artigo pertencem à colecção particular do autor do artigo, ao “O Covil do Vinil” e ao próprio fotógrafo, Fernando Aroso.

Parte substancial deste artigo foi redigido pelo autor para a exposição “Fernando Aroso - Uma Visão Discográfica”, como já foi aqui referido. No entanto, para melhor compreensão e actualização de novas imagens e conteúdos, recorreu-se também a uma actualização textual.

 

Texto de Francisco J. Fonseca

 

 

 

CAPA DO PRIMEIRO LP DE ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1967).
Parte do "Monumento ao Esforço Colonizador Português". Praça do Império, Porto.
Realizado para a Exposição Colonial do Porto - 1934.



CAPA DO SEGUNDO LP DE ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1969).
Praia de Lavadores - Vila Nova de Gaia.
É a própria filha de Aroso que aparece de costas. 
A inscrição aproveitada na rocha tinha sido feita dias antes por um fã dos Beatles.
É, por assim dizer, o primeiro “grafitti” português com direito a publicação num disco de vinil.



     

CAPA E CONTRACAPA DE "COME HEAR THE BAND" DOS ARTE & OFICIO (1978).
Foto tirada em frente ao Parque de Estacionamento do Siloauto - Porto.
Primeiro máxi-single feito em Portugal duma banda nacional.

 


     

CAPA E CONTRACAPA DE "FACES" DOS ARTE & OFICIO - ORFEU (1979).
Um dos mais raros discos de vinil dum grupo português. Ainda sem edição em CD.

 


CAPA DO LP “MÚSICA DE PORTUGAL” - ALVORADA (1968)
Com o telhado em obras foram os próprios donos, aqui na fotografia com a família, a retirá-lo para criar o efeito pretendido.

 


CAPA DO EP "LIMPA O PÓ" DO CONJUNTO ANTÓNIO MAFRA (1962).
A foto foi tirada no antigo entreposto da Secil na Foz do Douro.
O local foi usado pelo arquitecto Edgar Cardoso a quando da construção da ponte da Arrábida. A maqueta é a original.

 


CAPA DO EP DO GRUPO INFANTIL “A COMANDITA” (1975)
O petroleiro dinamarquês Jacob Maersk explodiu, partindo-se em dois.
A proa veio dar à costa junto ao Castelo do Queijo, no Porto. Foi motivo de atracção e fotográfico durante dois anos.

 


CAPA DO LP DE MANUEL BRANQUINHO “CANTA FADOS DE COIMBRA” (1969)
Imagem tirada na Igreja Velha de Santa Clara em Coimbra.
Os músicos subiram por uma escada emprestada para a pose fotográfica.

 


     
         
     

CAPAS DOS DISCOS DE TRISTÃO DA SILVA E FLORÊNCIA
Capas da primeira edição editadas sem supervisão de Fernando Aroso.
Capas posteriores com os devidos enquadramentos.

 


     

CAPAS DOS DISCOS DE ADELINA SILVA E CONJUNTO TÍPICO MEIA LUA
O mesmo local do Porto servia de cenário para duas sessões distintas.
Curiosa a escolha e o comportamento dos animais que aparecem nas fotos.

 


     

CAPA DO LP “FADOS DE OUTROS TEMPOS/1” - VÁRIOS ARTISTAS (1982)
Um dos temas preferidos de Fernando Aroso, os batentes.
Com o trabalho a escassear durante a década de 80, este motivo vai ter sucesso como colecção de calendários. Outros motivos se seguirão.

 

 

     

CAPA E CONTRACAPA DO EP DE GINA MARIA COM O CONJUNTO SOUSA GALVÃO (1960)
Uma magnífica foto da artista que vale também pela imagem do conjunto de acompanhamento.

 

 

     

CAPA E CONTRACAPA DO EP DO GRUPO ORGANUM “HISTÓRIA D'UMA ÁRVORE” - CLAVE
Um exemplo em que por vezes a capa e a contracapa merecem a mesma atenção.

 

 

     

CAPAS DO LP “CANTOS VELHOS RUMOS NOVOS” DE JOSÉ AFONSO - ORFEU (1969).
Primeira prova, rejeitada, sem a filha do cantor.
Capa original da primeira edição com a filha de José Afonso a desenhar ao colo do pai.

 

 

     

CAPAS DO LP “PIANORAMA - VOL.2” DE MIGUEL GRAÇA MOURA - ORFEU (1975).
Primeira prova, rejeitada, executada por Aroso com bonecos de plasticina, arame e madeira.
Capa original definitiva, a cores, com fotografia do músico.

 

 

     
         
     
         

FOTOGRAFIAS DA EXPOSIÇÃO “ FERNANDO AROSO - UMA VISÃO DISCOGRÁFICA” (2012).
Esteve patente nas instalações da antiga Discoteca Jo-Jo's Music, Rua de Cedofeita, Porto.
Organizada pela mesma pessoa que escreve este artigo.

 

 

 

 

 

 

 


 

 


 

" Seria o dia

em que diria

o meu poema

da fria água

 

Portas que batem

que fecham   que abrem

que abrem   que fecham

 

Sons a crescer

são as crianças

 

Falam que falam

saltam   que saltam

gritam   que gritam

 

Roubam-me esperanças

de vir dizer

o meu poema

da fria água

 

O varredor

da minha rua

faz da vassoira

a seu capricho

chegar a mim

canções do lixo

 

Menina triste

que mora ao lado

canta   que canta

canta   que canta

desafinado

 

Seria o dia

(se fosse calmo)

em que diria

versos dispersos

do meu poema

da fria água

 

Tamancos soltos

varinas passam

bate   que bate

bate   que bate

 

Gritam pregões

os vendedores

de bugigangas

 

chiam os carros

os bois às cangas

 

"Grelhas! Quem quer grelhas!"

"Boas! Quem quer boas!"

 

"É o Mil Trezentos e Trinta e Um"

 

"Amola tesoiras e navalhas"

 

Latem os cães

 

Bufando

miando

fogem os gatos

pelos quintais

 

sobem pregões

das vendedeiras

 

"Mel! Quem compra o mel!"

(Lembram natais)

 

Terrim   Terrim

terrim   terrim

 

O telefone

(o indiscreto

vive comigo

sob o meu tecto)

 

E da goteira

do meu telhado

o som quebrado

continuado

pim   pim   pim   pim

pim    pim  pim     pim

 

é som nostálgico

que vem a mim

 

Seria o dia

em que diria

o meu poema

da fria água

 

 

Alguém que mexe

na minha porta

a hora morta

mexe no fecho

e não a abre

 

Resta-me a dúvida

de quem será

 

Alguém   quem sabe?

a vir assim

dizer por mim

com toda a mágoa

 

o meu poema

da fria água ”



POEMA DA FRIA ÁGUA
Extraído do livro "Poemas da Inútil Imagem" - Porto 1959