Como é sabido e referido em muitos compêndios, “E Depois do Adeus” foi uma canção que fez parte do XI Grande Prémio da TV da Canção 1974. O evento decorreu no dia 7 de Março de 1974 no Teatro Maria Matos com a apresentação a cargo de Artur Agostinho e Glória de Matos. Concorrentes a esse Festival foram os Green Windows, José Cid, Xico Jorge, Duo Ouro Negro, Verónica, Paulo de Carvalho, Artur Garcia, Fernanda Farri e Helena Isabel (à época casada com Paulo de Carvalho). Com excepção dos três primeiros, todos os outros aparecem nas fotos dum cocktail oferecido no dia 8 de Fevereiro de 74 aos artistas pela organização do evento, (ver imagens).

Pese embora o facto de “E Depois do Adeus” ter sido a primeira senha do movimento das Forças Armadas dando de facto início à Revolução do 25 de Abril, o certo que nunca teve à época o peso da canção “Grândola Vila Morena” de José Afonso, a segunda senha radiofónica, emitida quando tudo estava a acontecer como o planeado.
Não sendo também o tema que mais se distinguia no reportório do ex-Sheiks Paulo de Carvalho, tudo fazia crer que com o tempo ela iria somente ser recordada circunstancialmente (aquando das memórias dos Festivais da Canção Portuguesa) como um dos títulos vitoriosos.
Na verdade, a sua importância foi crescendo com os anos, não só ligada à Revolução dos Cravos, mas também a uma década de muitas transformações sociais, não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo. Para a música, a década de 70 começou com o fim dos Beatles e de uma geração do Amor que pouco adiantava quanto ao futuro. Em Portugal surgiu nesse ano de 1970 o primeiro álbum do Quarteto 1111 que disparava em todos os quadrantes da política e da sociedade portuguesa de então. Como seria de esperar o álbum foi censurado e retirado do mercado, mas o efeito surpresa e ousadia ganhou terreno e muitos simpatizantes. Tais argumentos iriam estar presentes durante toda a década não só na música mas também na sociedade. Nada mais abonatório do que os ingleses Sex Pistols que em 1976 gritavam alto e em mau som o refrão “Never Mind The Bollocks!...”
Por isso, mais que a dita fraternidade de “Grândola Vila Morena”, “ E Depois do Adeus” tem o seu quê de despedida, isto é, de partir para outra nem que seja a sós…
Um pouco, como foi previsível à época, “E Depois do Adeus” não foi pródiga em versões, são mais as instrumentais conhecidas do que as cantadas. Conhecemos as do autor, José Calvário, (a primeira no LP “E Depois do Festival” da Orfeu editada em 1974) mas também da Orquestra de Miguel Salerno editada pela etiqueta Alvorada.
Tony de Matos foi um dos poucos artistas portugueses que no século passado inclui o tema no seu reportório, num EP da editora Estúdio. Na década de 80 surge no belíssimo duplo álbum, “Só Nós Três”, em que Paulo de Carvalho canta alguns dos seus êxitos juntamente com os cúmplices Carlos Mendes e Fernando Tordo. Na década de 90 conhecemos a versão do pianista Carlos Martins no registo de originais intitulada “Sempre”.
Já neste século surge em 2002 num registo dos Vozes da Rádio, "O Som Maravilha dos Senhores"; em 2004 com Mário Laginha e Bernardo Sassetti, “Grândolas- Abril a Quatro Mãos”; em 2006 numa versão de Henrique Feist incluída numa série musical da RTP editada pela Sony BMG, “A Canção da Minha Vida”; em 2014 no projecto musical designado como “Movimento” que juntava os artistas Miguel Ângelo, Gomo, Marta Ren e Selma Uamusse; em 2016 no projecto dos Boca Doce incluída no sugestivo cocktail musical “O Bom, o Mau e o Bigode”, e, em 2017 no disco tributo “Duetos” em que Paulo de Carvalho reinterpreta a canção com Mariza Liz dos Amor Electro, (ver imagens).

 

 

Incidindo na discografia oficial do cantor, e, das várias edições discográficas que temos conhecimento; “E Depois do Adeus” foi também título dum álbum editado pelo Circulo de Leitores/ Orlador em 1974. Nesse mesmo ano a editora Orfeu (a que Paulo de Carvalho estava ligado), lançou no mercado o álbum “Paulo” que incluía do mesmo modo a canção vencedora, (ver imagens).
Há porém várias compilações do artista em que o tema está incluído. A primeira surgiu em 1980 pela etiqueta Da Nova, “Antologia - 10 Anos 12 Cantigas”, e, em 1982, no dúplo LP “A Arte e a Música de Paulo de Carvalho”. Já no formato CD a Movieplay lançou no mercado em 1994 a série “O Melhor dos Melhores” que incluía o artista e o tema no CD nº19. Também a multinacional BMG Ariola editou em 1995 uma colectânea “33…Vivo”, que incluía “E Depois do Adeus”. A mesma surge na colecção “Os Inesquecíveis” da Planeta de Agostini; na “Antologia 40 Anos” da Movieplay em 2002; na série da editora Universal “A Arte e a Música” em 2004; na compilação “Vida” editada pela Farol Música em 2006 e na “Antologia 71/86” da Universal Music Portugal em 2007. Em 2011 saía outra colectânea do autor pela editora “Farol Música”, intitulada “Vivo-50 Anos de Carreira” que incluía o celebrado tema do Festival de 1974.

A canção vencedora surge muito naturalmente incluída em várias compilações da Música Popular Portuguesa, e, entre outras, aparece em 1991 numa colectânea de 8 discos de vinil “Estrelas da Música Portuguesa” das Selecções do Reader’s Digest; em 1998 num lançamento do Jornal Expresso “As Grandes Canções”; em 1999 numa edição da Movieplay “Canções com História”; em 2004 numa edição da Movieplay “25 de Abril- 30 Anos- Canções de Luta e Liberdade”; “O Melhor da Música Portuguesa - 50 Anos” edição da EMI Portugal com o Jornal Público em 2007; “Portugal - As Grandes Canções de Sempre” edição da Universal em 2010; “Portugal Com Alma” da Farol em 2013, e, em outras compilações dos vencedores do Festival da Canção Nacional.

 



Para além fronteiras, o single com o tema da Eurovisão teve várias prensagens, maioritariamente na versão comercial inglesa intitulada “(And Then) After Love”. Sabemos que o single foi editado na Alemanha, na Escandinávia, na Suécia, na França e em Moçambique. No caso da edição francesa, sabemos de duas edições distintas, (ver imagens).
Também temos conhecimento que a canção fez parte duma banda sonora da telenovela da TV Tupi do Brasil em1975, intitulada “Meu Rico Português”. “E Depois do Adeus” surge numa versão instrumental pela Orquestra de Luiz Arruda Paes e numa versão cantada pelo fadista Sebastião Manuel.
Ainda no país irmão, os brasileiros Moacir Franco e Márcio José foram dois dos poucos estrangeiros que gravaram a música.

Com o mote do título da canção, “Depois do Adeus”, foi também uma série televisiva de 26 episódios realizados pela RTP1 entre 19 de Janeiro de 2013 a 8 de Julho do mesmo ano, e, que retratava essencialmente o drama dos retornados das ex-colónias portuguesas após o 25 de Abril de 1974.

Dissertando agora um pouco sobre os autores da música;
José Niza (1938-2011) foi um destacado compositor / letrista da Música Popular Portuguesa, mas também se salientou como médico e político. Começou por fazer parte, durante a sua vida estudantil em Coimbra, do Clube de Jazz do Orfeão Académico. Acompanhou à viola alguns dos baladeiros da época, casos de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.
Foi no entanto nos Festivais da Canção Portuguesa que ficou conhecido do grande público, não só pelas inúmeras participações como autor, mas também pelas 4 vezes que ganhou o concurso (em 1972 com “A Festa da Vida” na voz de Carlos Mendes, em 1974 com “E Depois do Adeus”, em 1976 com “Uma Flor de Verde Pinho” na voz de Carlos do Carmo e em 1988 com “Voltarei” na voz de Dora).
Foi, durante boa parte da década de 70, o responsável de produção da editora Orfeu propriedade de Arnaldo Trindade. É nessa editora que em 1972 José Niza idealizou um dos melhores discos de sempre da Música Portuguesa, “Fala do Homem Nascido”, com música da sua autoria e poesia de António Gedeão. Foi também compositor e produtor de alguns conhecidos artistas que durante esses anos estiveram ligados à editora Orfeu, casos de Carlos do Carmo, José Afonso, Tonicha, Teresa Silva Carvalho, Vitorino, Carlos Mendes, José Calvário, e, claro, Paulo de Carvalho.
Quanto ao maestro José Calvário (1951-2009), teve também bastante visibilidade durante as décadas de 70 e 80 como autor de canções concorrentes ao Festival da Canção Portuguesa. Em 1971 musicou “Flor Sem Tempo” para a voz de Paulo de Carvalho, alcançando o 2º lugar. No ano seguinte vencia com “A Festa da Vida” na voz de Carlos Mendes (a primeira vez fazendo dupla com José Niza). A mesma dupla alcançou o 3º lugar com “Gente” na voz de Duarte Mendes. Em 1974 foi então, pela segunda vez, vencedor com “E Depois do Adeus” na voz de Paulo de Carvalho. Em 1983 foi também pela segunda vez autor dum tema classificado em 3º lugar, “E Afinal Quem és Tu?” na voz de Helena Isabel. Um feito que repetiu em 1985 com a canção “Meia de Conversa” pela dupla Nuno e Henrique Feist. No entanto foi de novo vencedor (uma vez mais com José Niza) em 1988 com o tema “Voltarei” na voz de Dora.
Mas não só de Festivais o nome de José Calvário teve a devida projecção no nosso panorama musical. Ainda na década de 70 teve sucesso, influenciado pelo Disco, com os registos "The Best Disco In Sound" e "What The World Needs Now". Foram também êxitos os álbuns das décadas de 80 e 90 com a Orquestra Filarmónica de Londres, designados como “Saudades Vol. I”, “Saudades Vol. II” e “Saudades Vol. III”.
Não sendo no entanto uma das melhores composições de José Calvário, o certo é que gravou o tema várias vezes em nome próprio, com destaques para “E Depois do Festival” em 1974, “Saudades Vol. III” em 1993 e “José Calvário w/ The London Symphony Orchestra” em 1994. Curiosamente, sabemos também que a Orquestra José Calvário surge com “E Depois do Adeus” numa colectânea editada em Novembro de 1974 pela etiqueta venezuelana “El Palacio” intitulada “Portugal Exitos Orfeu”.

 


NOTA FINAL:

Quase todo o espólio fotográfico aqui exposto pertenceu a um Arquivo Fotolitográfico de uma Agência de Publicações Periódicas já extinta. Na sua maioria, elas têm referências dos autores no verso, bem como locais onde foram tiradas.
Embora resgatadas dum final pouco digno, achamos por bem mostrá-las ao público neste trabalho de pesquisa sem outros fins que não fosse mesmo o seu propósito inicial, isto é, a sua divulgação.
Agradecemos pois a Eduardo Tomé, Olavo, Jorge M. e Homem Cardoso, nomes dos fotógrafos referenciados no verso.
Algumas das fotos foram tiradas no sound check em Brighton (Inglaterra) no dia 6 de Abril de 1974, horas antes de se iniciar o Festival da Eurovisão. Outras foram captadas em viagem. Outras nos bastidores. Uma outra já na participação de Paulo de Carvalho no Festival da Canção de 1975.

 

Texto de: Francisco J. Fonseca

  

 

   
     
Num tempo em que o aparelho da rádio tinha um local próprio em cada casa, os pais de Paulo de Carvalho mostram com orgulho a telefonia com a fotografia do filho. Nesse ano de 1974 foi a emissora Antena 1 a transmitir o evento.    

 

   
     
    Curiosa fotografia com Jaime Fernandes (Departamento Comercial da Orfeu) ladeado com dois artistas da editora, Mário Viegas e Paulo de Carvalho.

 
















 

   
     
Fotografia dos bastidores com a cantora Teresa Silva Carvalho. Eles participaram dois anos antes, juntamente com a Tonicha, na 14ª edição da Taça da Europa de Cantares de Knokke. Só em 1977 fizeram parte do mesmo Festival TV da Canção com a vitória a sorrir de novo a Paulo de Carvalho (integrado no grupo Os Amigos). O curioso nesta foto prende-se também pelo gesto da mão em frente à boca. Um gesto usual nos tempos que correm, mas que à época era, por assim dizer, inusitado…    



   
       
  Paulo de Carvalho com o editor Arnaldo Trindade redigindo o contrato para edição comercial do single “(And Then) After Love” no estrangeiro.   Paulo de Carvalho, José Calvário e José Niza (de costas em baixo), nos bastidores do Festival da Canção.

 


 
     
Paulo de Carvalho em Abril de 1974, na hora do "Adeus".   Paulo de Carvalho em Abril de 2018, o "Adeus" sempre presente.