A vulgar cassete ou K7, como agora é mais conhecida,  foi uma invenção da empresa holandesa Philips no ano de 1962, mas só surgiu oficialmente no mercado em 1963. Veio combater o anterior formato em fita, o popular Cartucho (8-TRACK CARTRIDGE), não só em economia de espaço mas também na facilidade do  utilizador fazer as suas próprias gravações.

Com a limitação do pequeno formato (a caixa em plástico não ultrapassava os 10cmx7cm) e uma largura de fita mais reduzida, inicialmente este formato não teve muita aceitação pelos audiófilos. No entanto com o decorrer dos anos houve um grande avanço em niveis de reprodução de som com o surgimento de fitas Low Noise, Cromo, Ferro e Metal e também com a melhoria dos aparelhos a utilizarem sistemas para redução de ruidos, o denominado Dolby.

Em 1992, num derradeiro folego para se manter este formato digital nas preferências do público consumidor, surgiu a DCC (Digital Compact Cassette), fabricado pela Philips e em concorrência directa com as DAT da Sony. Um esforço algo inglório pois nesta batalha quem ganhou em poucos anos foi o novo formato comercial o MiniDisc.

Mas voltemos uns bons anos atrás. Em finais dos anos setenta, a cassete fabricada de origem e a cassete dita pirata eram o formato musical mais vendido do mundo, facto que veio consolidar com a invenção  e a popularidade do Walkman pela Sony. 

Como foi descrito atrás, a musicassete, (MC), tinha a virtude de ser vendida pré gravada ou ser vendida pronta para o utilizador gravar conteúdos e nisto residiu toda a diferença face aos outros formatos existentes. Devido ao fácil manuseamento, a cassete foi a principal responsável para o surgimento do termo “Bootleg”, isto é, uma gravação sem grande primor de som mas já com uma qualidade aceitável. Muitos artistas criavam mesmo as suas demos através de um deck de cassetes e assim surgiram para deleite de muitos fãs e colecionadores, verdadeiras preciosidades que subsistem hoje em dia apenas no formato K7. Também as editoras, pensando que utilizando este suporte musical reduziam os custos de promoção, contribuiram para uma pequena fartura de reliquias musicais. Uma delas bafejou a cantora Kate Bush em 1989 com uma cópia de promoção “The Sensual World” com capa diferente e uma entrevista com Roger Scott ( famoso radialista que participou no “Bed-In” de Lennon & Yoko e na gravação do tema “Give Peace a Chance”. Roger Scott faleceu alguns dias após esta entrevista). Mais cotada está a cassete dos Beatles, a mais procurada bootleg da história, baptizada de “Kum Back”, que é nem mais nem menos que o albúm “Let It Be” com outras remisturas feitas originalmente pelo engenheiro de som da EMI, Glyn Johns. Mas continuando a falar dos 4 de Liverpool existe também para os fãs a “Beatles Box” uma antologia da EMI /  Reader's Digest, com 8 cassetes numa caixa e um livreto a acompanhar.

 

O que tem de extraordinário esta edição de 1987 é que muitas faixas não eram iguais às edições originais. Do mesmo jeito as Selecções Reader's Digest lançaram em 1986 uma caixa de três cassetes de Bruce Springsteen “Live 1975-1985” que se tornou rápidamente um doce para os fãs do Boss. Para quem gostar de Durutti Column e do frontman Vini Reilly existem umas centenas de pequenas caixinhas (12x17x3) de promoção da editora Factory, cada uma contendo um album e um apêndice informativo que tanto é em cartão com colagens como papel de lixa. Um mimo para os primeiros discos dos Durutti Column dos anos 80. Desta década também os R.E.M. gravaram uma cassete audio com os temas “Radio Free Europe”, “Sitting Still” e “White Tornado” com misturas inéditas numa sessão caseira com o produtor Mitch Easter. Foram os próprios músicos da banda que remeteram pelo correio perto de 400 cópias destas gravações para diversos jornais e rádios locais a promover a banda. O inlay e as diversas etiquetas tiveram a criatividade do próprio Michael Stipe. Também em Portugal tivemos as nossas reliquias em K7  e uma das mais procuradas continua a ser uma demo dos Mão Morta editada pela banda em 1987 com os temas “Oub'La”, “Veus Caídos” e “Abandonada” no Lado A e “Aum”, “Sitiados” e “E se Depois” no Lado B. Por dificuldades financeiras ou apostas de mercado outros grupos optaram pela edição dos seus trabalhos apenas no formato cassete. São exemplos os Sui Generis em 1982, os Ocaso Épico com “Desperdicios” em 89, Os Tusa Lusa em 92 e uma colectânea dupla dos Ena Pá 2000 em 1994 denominada “Deus Pátria e Os Ena Pá 2000 - Vol.1 e Vol.2”.

Mas mais entusiasmante e deveras peculiar foram as várias cassetes deixadas numa caixa por António Variações. Nessas gravações caseiras encontravam-se verdadeiros diamantes em bruto da melhor Música Popular Portuguesa e que o colectivo Os Humanos soube dar vida em 2004. No entanto excertos dessas maquetes originais podem-se ouvir na colectânea “História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque” editada em 2006.

Em Portugal, e o mesmo acontece lá fora, ainda subsiste um nicho de mercado de cassetes K7 bastante activo que delicia os muitos admiradores e coleccionadores de música. Mesmo para um dos muitos fãs dos Beatles, da Madonna, de Bon Jovi ou dos Iron Maiden, encontrar uma K7 original em perfeito estado continua a ser uma demanda quase sempre inglória. 





Texto de: Francisco J. Fonseca.